Nunca tive medo da morte…

Índice(Caronte, o barqueiro da Morte)

          Nunca tive medo da morte. Nunca desejei viver demais. Sempre gritei aos quatro cantos do mundo para quem quisesse ouvir que me bastaria viver até os setenta anos. O medo da morte, na maioria das vezes, surge pelas incertezas do que existe além dela; se há algo mais ou se realmente é o fim de tudo. Não tenho medo do que está por trás dela; meu medo não é esse.

          A primeira vez que me deparei com a morte foi no enterro do meu avô materno. Não lembro quantos anos eu tinha; só me recordo que era criança. Sofri mesmo assim, claro. As crianças sofrem a seu modo. E apesar dos meus sentimentos serem confusos demais para a idade, eu já não temia a morte.

          Outro contato que vivenciei, porém bem mais intenso, foi o falecimento do meu pai. Tinha apenas 21 anos e já possuía também uma capacidade reflexiva maior para perceber e discernir meus sentimentos, sensações e saber que postura adquirir diante dessa situação. E mesmo com esse contato tão próximo, o medo não bateu a porta e não mudei minha ideia sobre morrer aos setenta anos.

          Até que a pouco tempo, na verdade agora aos meus vinte e oito anos, a morte de uma prima da minha mãe me intrigou a ponto de me fazer rever meus lemas e a forma que encaro a vida e a morte. A moça era jovem, bonita, acadêmica e tinha um namorado. Aparentemente, levava uma vida como qualquer outra pessoa leva. Como a minha. Ou como a sua, talvez.  Mas não, não era. Era a vida dela e era única. Como a minha e a sua. Vivida e percebida de forma também única apesar de fatos semelhantes ocorrerem na vida de todos nós. Sem chances de retornos. Sem chances para novos erros e acertos.

          Hoje estamos aqui; lendo, conversando, sorrindo ou chorando, fazendo planos ou já mudando o rumo de nossas vidas. Mas amanhã de repente, tudo pode terminar. Será que o que foi vivido até agora valeu a pena? Será que ao fazermos uma reflexão poderemos concluir que a maioria das nossas vivências valeu a pena? Continuo não tendo medo da morte, mas confesso que esse último fato me levou à toda essa reflexão.

          Não tenho medo da morte. Meu medo é de olhar para trás e achar que não valeu a pena; que não vivi como eu queria e que não conquistei o que almejava. E por conta disso acabei criando uma certa urgência em estar e me sentir viva; em agarrar as coisas boas que a vida me oferece e me afastar do que me atrasa. Fez nascer uma sede de viver, mas não desenfreadamente e sim com cautela; para que no final eu conclua que nada foi em vão e que a vida fez sentido para mim. Apesar de ter urgência em estar viva eu não quero ter pressa de viver. Quero que seja intenso enquanto em mim houver vida.

E nada de deixar para amanhã. Amanhã pode ser tarde demais…

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